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Espiritualidade

Pomba gira: quem é, origem, principais nomes e o que é mito

Por Equipe DarpanaAtualizado em 4 de outubro de 20266 min de leitura

Pomba gira, ou pombagira, é uma entidade feminina da linha de esquerda da Umbanda e da Quimbanda. Trabalha como guardiã, protetora e conselheira, especialmente em temas de amor próprio, relacionamentos, autoestima e força feminina. Atua em falanges, como Maria Padilha e Maria Mulambo, e não é uma entidade do mal.

A pombagira é uma das figuras mais marcantes das religiões afro-brasileiras e, ao mesmo tempo, uma das mais cercadas de estereótipos. Vestida de vermelho e preto, com risada alta, taça na mão e postura altiva, ela costuma ser retratada em novelas e piadas como sedutora perigosa ou como alguém que faz trabalhos para prender um amor. A realidade nos terreiros é bem diferente.

Neste artigo você vai entender quem é a pombagira, de onde vem o seu nome, como funcionam as falanges, quem são as pombagiras mais conhecidas e quais são os mitos mais comuns. Como em tudo que envolve a Umbanda, cada casa tem fundamentos próprios, e orientações específicas devem vir do seu terreiro e do seu pai ou mãe de santo.

Quem é a pombagira?

Na Umbanda, a pombagira é uma entidade de energia feminina que trabalha na linha de esquerda, ao lado dos exus. Muitas casas a descrevem como o exu feminino, ou seja, uma guardiã que atua na proteção, no corte de energias negativas e na abertura de caminhos. Sua marca própria é o trabalho ligado ao amor, à sexualidade vivida com liberdade e responsabilidade, à autoestima e à capacidade de cada pessoa se colocar no mundo.

Nas giras, as pombagiras costumam se manifestar com alegria, vaidade e franqueza. Gostam de rosas vermelhas, perfumes, joias e, em muitas casas, de champanhe ou cigarrilha. Conversam com os consulentes sem rodeios, apontam autoenganos e incentivam as pessoas, sobretudo as mulheres, a recuperar a dignidade e o poder de decisão sobre a própria vida.

Muitas vertentes ensinam que as pombagiras são espíritos de mulheres que viveram na Terra, muitas vezes à margem da sociedade do seu tempo, e que hoje trabalham pela própria evolução e pelo bem de quem as procura. Por isso conhecem de perto o sofrimento causado pelo julgamento, pelo abandono e pelo preconceito.

Qual é a origem da pombagira?

A explicação mais aceita liga o nome pombagira a Pambu Njila, inquice cultuado no Candomblé de nação Angola, de origem banto. Pambu Njila é a divindade dos caminhos e das encruzilhadas, equivalente ao papel que Exu tem na tradição iorubá. Com o tempo, o nome foi aportuguesado para bombogira e depois pombagira.

No Brasil, especialmente a partir do surgimento da Umbanda no século XX, a figura ganhou uma forma feminina e personalidade própria, misturando a herança banta, elementos da cultura popular, referências ibéricas e ciganas e histórias de mulheres reais e lendárias. A grafia pode variar: pombagira, pomba gira e pomba-gira são usadas, e todas se referem à mesma entidade.

A pombagira é cultuada principalmente na Umbanda e na Quimbanda, religião que trabalha especificamente com a linha de esquerda. No Candomblé tradicional, o culto é aos orixás, voduns ou inquices, e a pombagira como entidade não costuma ter o mesmo lugar.

O que é uma falange de pombagira?

Assim como os exus, as pombagiras trabalham em falanges, grupos de espíritos que atuam sob o mesmo nome e a mesma vibração. Quando uma médium diz que trabalha com Maria Padilha, isso não significa que recebe a mesma alma que se manifesta em todos os terreiros do país. Significa que trabalha com um espírito daquela falange.

Muitas falanges ainda se dividem em nomes compostos, que indicam o campo de atuação, como Maria Padilha das Almas, Maria Padilha da Encruzilhada ou Maria Padilha do Cabaré. Cada uma tem particularidades, e a identificação correta da entidade de um médium é feita pelo dirigente da casa.

As pombagiras mais conhecidas

A lista de falanges é longa e muda de região para região. Abaixo estão as mais citadas, com as características mais difundidas.

Maria Padilha

É a pombagira mais famosa do Brasil, muitas vezes chamada de rainha. Seu nome é associado à figura histórica de María de Padilla, amante do rei Pedro I de Castela no século XIV, que inspirou lendas sobre magia e poder na Península Ibérica e chegou ao Brasil por meio de orações populares portuguesas. Na Umbanda, é descrita como elegante, altiva, inteligente e ligada à autoestima, à liderança e à força feminina.

Rainha das Sete Encruzilhadas

Pombagira de grande hierarquia em muitas casas, comanda as encruzilhadas, pontos onde os caminhos se cruzam. Atua em escolhas, decisões e proteção espiritual. Costuma ser descrita como séria, poderosa e muito respeitada pelas outras entidades da esquerda.

Maria Mulambo

Seu nome lembra trapos, mas a história contada nos terreiros é de uma mulher que perdeu tudo e foi humilhada, sem perder a dignidade. Por isso Maria Mulambo é vista como protetora de quem passa por dificuldades, tristeza ou rejeição, ajudando a transformar dor em força. Costuma ser alegre, acolhedora e generosa.

Pombagira Cigana

Reúne a energia da pombagira com a cultura cigana: dança, liberdade, leitura de cartas, moedas, lenços coloridos e o gosto pela estrada. Trabalha com intuição, prosperidade e caminhos. Não deve ser confundida com a linha do Povo Cigano, que em muitas casas é uma linha à parte, de direita ou independente.

Outras pombagiras conhecidas

Também são muito citadas Dama da Noite, Sete Saias, Rosa Caveira (ligada à linha das almas), Maria Quitéria, Pombagira Menina e Pombagira das Almas. Cada falange tem sua forma de trabalhar e suas preferências.

Mitos e verdades sobre a pombagira

A imagem popular da pombagira foi construída em grande parte por quem não conhece a religião. Veja os mitos mais comuns.

MitoO que ensinam os terreiros
Pombagira é um demônioÉ uma entidade espiritual de trabalho e proteção. A associação com o demônio vem do mesmo preconceito que atinge Exu.
Pombagira serve para amarrar alguémCasas sérias não fazem trabalho para forçar a vontade de outra pessoa. As pombagiras trabalham o amor próprio, e não a prisão de ninguém.
Quem recebe pombagira é promíscuaIsso é estereótipo machista. Mediunidade não define caráter nem vida afetiva.
Pombagira só aparece para mulheresHomens também são médiuns de pombagira e também se consultam com ela.
Pombagira é vingativaEla pode ser franca e firme, mas trabalha dentro da lei e do merecimento de cada um.

Por que a pombagira é tão mal compreendida

A pombagira reúne tudo o que a sociedade patriarcal costumava condenar numa mulher: liberdade sexual, independência, voz alta, gosto pelo prazer e recusa em pedir licença. Por isso ela foi vista como perigosa e ridicularizada por séculos. Muitos estudiosos destacam justamente esse lado: a pombagira dá voz a experiências femininas que foram silenciadas.

Para muitas mulheres que frequentam a Umbanda, as consultas com pombagiras são espaços de acolhimento, onde podem falar abertamente sobre relacionamentos abusivos, autoestima e desejo sem serem julgadas. Esse aspecto de cuidado raramente aparece nas representações da televisão.

Como respeitar a pombagira

Se você vai a uma gira de esquerda, chegue com respeito, siga as orientações dos cambones e não trate a entidade como atração. Na conversa, seja honesto: a pombagira costuma perceber quando alguém está escondendo algo.

Não faça oferendas por conta própria copiando receitas da internet. Rosas, champanhe e perfumes podem fazer parte dos fundamentos, mas a forma, o local e a ocasião devem ser orientados pelo terreiro. E desconfie de qualquer pessoa que, em nome da pombagira, prometa trazer amor de volta, cobre valores altos ou faça ameaças. Isso não representa a Umbanda. A saudação mais usada é Laroyê, Pombagira, ou Salve as Pombagiras, conforme a casa.

Perguntas frequentes

Pomba gira faz amarração?

Casas sérias de Umbanda não fazem amarração nem trabalhos que forcem a vontade de outra pessoa. A pombagira trabalha com o amor próprio, a autoestima e a clareza nos relacionamentos. Quem promete trazer a pessoa amada de volta em poucos dias, geralmente cobrando caro, está se aproveitando do sofrimento alheio e não representa a religião.

Qual o dia da pombagira?

A segunda-feira é o dia mais associado à linha de esquerda, e muitas casas fazem as giras de exus e pombagiras nesse dia. Também é comum ouvir que a sexta-feira é um dia de força para as pombagiras. Mas o calendário depende de cada terreiro, que define quando acontecem as giras e as homenagens.

Quais são as cores da pombagira?

As cores mais comuns são o vermelho e o preto, que simbolizam a força vital e a proteção da linha de esquerda. Algumas pombagiras também usam dourado, rosa, roxo ou cores vivas, como a Cigana. As roupas, saias e acessórios podem variar conforme a falange e os fundamentos da casa.

Como saber se tenho uma pombagira?

Muitos terreiros ensinam que cada pessoa tem guardiões de esquerda, um exu e uma pombagira, mesmo que não seja médium de incorporação. A identificação, porém, só pode ser feita com segurança dentro de uma casa, pelo dirigente ou pelo jogo de búzios. Sonhos ou intuições podem ser sinais de interesse, mas não são confirmação.

Homem pode receber pombagira?

Sim. A mediunidade não depende do gênero do médium, e muitos homens trabalham com pombagiras na Umbanda. Da mesma forma, mulheres podem trabalhar com exus. O preconceito contra homens médiuns de pombagira existe, mas não tem base nos fundamentos da religião, que valorizam o trabalho espiritual de cada um.

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